domingo, 30 de novembro de 2008

Filmes - Quanto Mais Quente Melhor (Some Like it Hot)

Um clássico de Billy Wilder, de 1959, com a Deusa Marilyn Monroe e os jovens Toni Curtis (lindo!!!) e Jack Lemmon.

Esse filme foi eleito nos EUA a melhor comédia de todos os tempos. Conta a história de dois músicos (Curtis e Lemmon) que presenciam acidentalmente um ritual de execução de mafiosos. Naturalmente, a Máfia não quer testemunhas do episódio e passa a perseguir os dois.

A solução encontrada pelos rapazes para salvar a pele é vestir-se de mulher e eles conseguem emprego numa banda só de garotas que tem como vocalista a doce Sugar (sic), vivida por Marilyn.

Elas viajam para tocar em um luxuoso hotel no litoral e passam a viver situações inusitadas, como Josephine (Toni Curtis), que torna-se a melhor amiga de Sugar e não pode demonstrar que está louco/a por ela e Daphne (Jack Lemmon) que arranja um candidato a namorado e começa a balançar as estruturas.

A confusão aumenta quando os mafiosos que procuram pelos dois se hospedam no mesmo hotel.

E no final do filme, uma cena com diálogos ambíguos: em um romântico passeio de barco a dois com seu apaixonado pretendente, Daphne tenta contar que ela não é o que ele imagina. E o "noivo" apaixonado deixa transparecer que já sabia e quer ela do mesmo jeito, com a classica frase "ninguém é perfeito".

No fim das contas, não fica claro se ele sabe ou se está tão cego de paixão que não enxerga, cada um deve assistir e tirar suas próprias conclusões.

Mas a cena é citada por muitos como a primeira proposta de casamento gay em filmes de Hollywood.

Confiram a página do filme no Internet Movie Database (IMBd): http://www.imdb.com/title/tt0053291/
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Seguem links para baixar o filme, via torrent, clicando aqui, com legendas em vários idiomas, inclusive português e por meio do blog Cinema Cult, com legendas em português.
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sábado, 29 de novembro de 2008

Campanha Não Homofobia: participe do abaixo-assinado pela aprovação do PLC 122/06

Apóie a aprovação do PLC 122/06. Em menos de 1 minuto, você assina o abaixo-assinado, envia seu voto para os 81 senadores e ainda indica a Campanha para seus amigos.

O site www.naohomofobia.com.br, que teve como principal plataforma de seu lançamento a 13ª Parada do Orgulho LGBT-Rio (outubro/2008), pretende, com a estratégia de sua Campanha, ser uma poderosa ferramenta de divulgação, pressão e mobilização social, pela aprovação do PLC 122/06. O projeto já foi aprovado na Câmara dos Deputados e aguarda votação no Senado Federal.


A proposta do site é a de ser um espaço democrático, que disponibiliza o conteúdo da Lei, defensores da causa no Senado, a polêmica em torno do debate e o principal: contar com o seu posicionamento, em um abaixo-assinado online, por meio do qual você poderá demonstrar seu apoio à criminalização da homofobia. Este abaixo-assinado a favor da aprovação do PLC 122/2006 será automaticamente enviado aos 81 senadores, com cópia para os 513 deputados federais, para o presidente da República e seus ministros, além do presidente do Supremo Tribunal Federal e do presidente do Superior Tribunal de Justiça.


É muito simples participar. Você preenche na Votação Online o seu nome, e-mail e RG ou CPF para validar a sua mensagem. Neste momento, você pode optar pelo registro de suas informações no banco de dados do Grupo Arco-Íris. O registro dessas informações será uma importante arma, para comprovar e divulgar aos senadores o número de pessoas que são favoráveis à lei.


A meta, além de esclarecer e desfazer boatos, é arrecadar mais de 1 milhão de assinaturas eletrônicas. A iniciativa inaugura, ainda, uma fase inédita de adesão da sociedade, utilizando a mídia mais democrática da história - a internet.


O www.naohomofobia.com.br tem o intuito de ser um grande propagador de assuntos que envolvem a questão da homofobia no Brasil e um aliado na conquista dos direitos de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais, além de forte instrumento de visibilidade e mobilização social no enfrentamento da homofobia no Brasil. Participe! Dê seu voto para dar um basta à homofobia no Brasil!


Parceiros da Parada do Orgulho LGBT-Rio 2008


Movimento D´ELLAS, ABGLT, Frente Parlamentar pela Cidadania LGBT.

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Transexual vence reality show na Itália

Sexta, 28 de novembro de 2008, 08h07

A vitória de Luxuria

Vera Gonçalves de Araújo
De Roma


Vladimir Luxuria, o transsexual comunista que venceu um reallity show na Itália

O melhor resumo da situação foi publicado no jornal "Il Riformista": "Cada país tem a revolução que merece. Nos Estados Unidos um negro foi eleito na Casa Branca. Na Itália, um transexual comunista ganhou um reality show graças ao voto dos espectadores".


A comparação fala da sexta edição italiana do show "L'isola dei famosi" (a ilha dos famosos), uma mistura de "No limite", da "Quinta das celebridades", e do clássico "Big Brother": um grupo de pessoas, mais ou menos conhecidas ("famosos", na verdade, é meio forçado como adjetivo), tenta sobreviver numa ilha deserta - nesta edição, em Cayo Cochinos, Honduras - sem os confortos da vida moderna.


A ganhadora do programa foi Vladimir Luxuria, nome de arte de Vladimiro Guadagno, transexual e ex-deputada de Refundação Comunista, que apesar de não ter se submetido a nenhuma cirurgia para mudar de sexo, prefere que todos a considerem uma mulher.


Nas eleições de 2006, Luxuria se tornou a primeira deputada transexual italiana. Nascida na cidade de Foggia em 1965 e formada em línguas e literatura estrangeiras, foi protagonista da primeira edição do Gay Pride de Roma. Antes de se apresentar como sisuda e compenetrada deputada comunista, a atriz Vladimir Luxuria era uma das ícones gays mais conhecidas do país. Depois da eleição, mesmo os eleitores mais conservadores foram obrigados a reconhecer sua inteligência e competência, como deputado.


Nas últimas eleições, seu partido não conseguiu nenhum representante na câmara e no senado, mas Luxuria conseguiu uma revanche espetacular na TV, conquistando o prêmio final do show, que vale 200 mil euros. Já declarou que vai destinar metade à Unicef.


No momento em que foi premiada, Luxuria se declarou "em plena tempestade hormonal de felicidade", e comentou que os italianos são muito mais avançados do que seus políticos, aproveitando para chamar atenção para a luta contra a discriminação. "Contra os preconceitos" - disse - "só há um antídoto: o conhecimento".


"Liberazione", jornal oficial de Refundação Comunista, aplaudiu o resultado do programa como se fosse uma vitória do partido: "Luxuria mostrou a milhões de italianos que a realidade é diferente e que também essa realidade tem os mesmos direitos da pretensa maioria". A mulher do ex-líder comunista Fausto Bertinotti contou que se comoveu ao ver a vitória final de Luxuria, e que seu marido também está muito feliz.


A "Ilha dos famosos", apresentada pelo canal Rai2, durou 10 semanas, batendo todos os recordes de audiência. O capítulo final, na segunda-feira passada, reuniu diante da telinha mais de oito milhões de espectadores.


Vera Gonçalves de Araújo jornalista, nasceu no Rio, vive em Roma e trabalha para jornais brasileiros e italianos.
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sexta-feira, 28 de novembro de 2008

BCC no programa "A Noite é uma Criança" de Otávio Mesquita

Em seu programa "A Noite é uma Criança", Otávio Mesquita entrevista um grupo de crossdressers do Brazilian Crossdressers Club - BCC.

Entrevista gravada no Rio de Janeiro, na Lapa, em frente à sede do tradicional Clube da Turma OK, o clube GLBT mais antigo do Brasil.

Parte 1


Parte 2


Vídeos postados no YouTube com a colaboração do site Gazeta da Kelly
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Empresa japonesa lança sutiã masculino

Produto comprometedor promete despertar sentimento "delicado"

UOL - Made in Japan
por Redação

18.11.2008


O sutiã para homens vem em três cores


“Homens também querem entender os sentimentos das mulheres. E os motivos para isso podem ser os mais variados possíveis”.


É o que diz o anúncio de um inusitado produto que chegou ao mercado japonês: o sutiã para homens.


O suporte aparentemente não tem finalidade nenhuma, a não ser, fazer com que o usuário se sinta “relaxado”.


A empresa que desenvolveu o “sutiã masculino”, a WishRoom, não cita nenhuma vantagem estética ou melhorias na saúde e postura. Apenas enfatizam que o produto desperta um sentimento “delicado”.


Em tamanhos diferentes (de 85 a 100 cm), o acessório vem em três cores: rosa, preto e branco, e pode ser adquirido por 2.800 ienes, cerca de 60 reais.


Masculinidade à parte, o produto tem sido freqüentemente relacionado nos sites especializados em esquisitices ao seriado animado “Golden Eggs”, espécie de “South Park” japonês. No desenho, um dos personagens (um fisiculturista) utiliza um suporte-para-músculos-peitorais e, por isso, é alvo de piadinhas de seus colegas.



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E aqui o site do fabricante, com mais fotos. Porém, com os textos em japonês:


http://item.rakuten.co.jp/wishroom/mensbra/

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quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Campanha Não Homofobia firma 17 comitês estaduais no país

Ao final do primeiro dia do "II Seminário de Advocacy e Aliadas", o coordenador-geral da Campanha Não Homofobia, Cláudio Nascimento realizou uma reunião com ativistas de 17 Estados para esclarecer possíveis dúvidas que ainda tenham permanecido sobre a campanha virtual em favor do PLC 122-06 que torna crime a homofobia no Brasil, através do site www.naohomofobia.com.br. Além disso, o grupo presente firmou, entusiasticamente, uma grande parceria com a coordenação para o desenvolvimento da campanha em todo país. Em apenas uma noite, 17 comitês estaduais de organização e mobilização pró-lei foram formados e mais nove lançamentos nos Estados da campanha foram confirmados para o final deste ano e início de 2009.

A reunião com os ativistas serviu para explicar o passo-a-passo de envio de emails, além de todas as ferramentas que o site disponibiliza para seus usuários. Cláudio Nascimento afirmou que a página eletrônica conterá informações a fim de gerar integração com os grupos LGBTs de todo o Brasil e informou que os mailing list do Disponível.com e A Capa.com foram cedidos gentilmente por seus empresários como apoio à campanha. Entretanto, ressaltou que a mobilização local é de suma importância para a adesão da população brasileira e, por isso, o protagonismo de cada grupo é essencial.

O coordenador-técnico da Campanha Não Homofobia, Júlio Moreira falou sobre a importância da difusão do site www.naohomofobia.com.br como estratégia de arrecadar mais assinaturas, principalmente de outros setores da sociedade. "Como exemplo de ampliação de diálogo com outros setores que não sejam especificamente a nossa área LGBT, podemos citar um programa de TV que convidou duas ex-bbbs que fotografaram dando um selinho. Acabou que em um determinado momento, elas começaram a falar que apoiavam a campanha e mostraram o site para os telespectadores. Da noite pro dia tivemos mais de duas mil assinaturas!", informou Moreira.

O encontro se mostrou fértil e produtivo. Muitos ativistas se animaram e disseram que farão grande esforço em seus estados para que a meta de 1 milhão de assinaturas seja atingida o quanto antes. Para o secretário da região sudeste da ABGLT e presidente do Grupo CELLO'S (MG), Carlos Magno disse estar contente e otimista com a aprovação do PLC 122/06, por se tratar de um projeto que está sendo bastante discutido com a sociedade em geral.

"O PL surge a partir de um debate público, diferentemente de muitas leis que são impostas pelos governos e não 'pegam'. Essa campanha é o que precisávamos para o vigoramento de nosso Movimento. Quando combinamos essas ações virtuais com a prática efetiva, teremos um diferencial inovador, uma vez que a lei, caso aprovada, será incorporada à Constituição depois de passar por uma série de debates e discussões", afirmou Magno.

Abertura do Advocacy

O presidente da ABGLT, Toni Reis iniciou a cerimônia de abertura do II Seminário de Advocacy LGBT e Aliadas, que contou com a presença Sub-Secretário de Defesa e Promoção de Direitos Humanos da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH), Perly Cipriano, do Deputado Federal, Iran Barbosa (PT-SE); da vice-presidente lésbica e coordenadora do Movimento D'Ellas, Yone Lindgren; e da coordenadora do Aliadas no estado da Paraíba, Fernanda Bevenutti.

Logo de início, a fala de Toni Reis direcionava os presentes para um debate fértil e objetivo. O ativista deixa bem claro que o encontro deveria render um produto, ou seja, "deixando as diferenças de lado, o grupo deveria se unir e pensar junto nas estratégias que viabilizassem a aprovação do PLC 122/06, que ainda tramita no Senado Federal, não deixando que ele retorne à Câmara dos Deputados, onde já foi aprovado".

Toni também chamou atenção para o fato que a senadora e relatora do projeto que criminaliza a homofobia, Fátima Cleide (PT-RO) se disponibiliza em ouvir o Movimento LGBT, mas de forma organizada e se possível consensual. A vice-presidente da ABGLT, Yone Lindgren concorda com todas as palavras do presidente e lamenta "a falta de mulheres nos eventos com esta temática, principalmente aqueles realizados e executados pelo próprio Movimento".

Em seguida, foi a vez do representante da Frente Parlamentar pela Cidadania LGBT, deputado Iran Barbosa (PT-SE) dar seu parecer quanto aos avanços do Movimento e sugerir formas de atuação. Barbosa atenta para os inúmeros pontos ganhos no Poder Executivo, porém sinaliza que o Movimento precisa dar corpo às suas reivindicações junto ao Legislativo, assumindo o enfrentamento no âmbito do Congresso Nacional como estratégia para ao atendimento de suas demandas.

"Se repudiamos a posição conservadora do parlamento, teremos que começar a refletir sobre nosso processo eleitoral, que nos remete ao conservadorismo da própria sociedade brasileira. E lastimável que nesta altura estejamos discutindo ainda a laicidade do Estado. (...) Se a felicidade existe, ela tem de ser de todos, sem preconceitos por ideologia, cor ou orientação sexual", afirmou Barbosa.

Já o Sub-secretário Perly Cipriano elogiou o Movimento LGBT, qualificando-o como o mais radical e profundo de todos. "Radical não quer dizer ser irredutível ou não dialogar, mas sim ter o conhecimento da luta pela raiz; é ter conhecimento profundo de causa". Além disso, Cipriano sugeriu a criação de cursos de capacitação a distância para ativistas de todos os estados e também a substituição do Conselho Nacional de Combate à Discriminação (CNCD) pelo Conselho da Diversidade da Orientação Sexual.

Por último, a coordenadora do Aliadas no estado da Paraíba, Fernanda Bevenutti disse estar na mesa enquanto pessoa trans e desejou bom seminário a todos os presentes.

Mesa 1: Advocacy

Toni Reis iniciou a mesa fazendo um breve histórico do Projeto Aliadas, que conta com a realização da ABGLT e execução do Grupo Dignidade. "Nosso slogan é 'compromisso com o respeito e a igualdade', o que muito ajuda na hora de fazermos o advocacy para arregimentar mais apoiadores de nossos projetos de lei no Congresso Nacional". O Projeto Aliadas conta com o apoio do CFEMEA, da ABL e da ANTRA.

Logo depois, foi a vez do Assessor Parlamentar da Liderança do Governo no Senado Federal , Marcos Rogério de Souza falar sobre a situação referente a LGBT no Congresso Nacional. Ele citou inúmeros projetos de lei de interesse do Movimento que ainda tramitam no Congresso, como o PL 2773/00 (que fala da retirada do termo pederastia e homossexual do Código Militar); PL 3712/08 (que altera a legislação tributária para a inserção de companheir@s de mesmo sexo no imposto de renda); etc. "No entanto, o PLC 122/06 tem de ter prioridade. O Movimento deve concentrar seus esforços para a aprovação desta lei, para não gastar energia com os inúmeros outros", disse.

Este foi o gancho para os advogados Paulo Mariante e Roberto Gonçale, falarem sobre o substitutivo do PL 1151/95, que reivindica por união civil entre parceir@s do mesmo sexo, de autoria de Marta Suplicy (PT-SP) e que tramita por anos no Congresso Nacional.

Mesa 2: Judiciário

O painel foi apresentado por Marcela Sanchez Buitrago (Colombia Diversa) e pela Dr.ª Maria Berenice Dias, que falaram sobre as experiências de advocacy no Judiciário da Colômbia e da situação referente a LGBT no Judiciário nacional. Para Dias, começar a avançar no Poder Legislativo significa avolumar o número de ações nos tribunais, para criar uma jurisprudência que de certa forma pressionará os legisladores a debaterem o tema.

"No momento em que a jurisprudência se consolida, o legislador tem que voltar atrás e refletir bastante antes de legislar, por que senão seguirá contrariamente as demandas sociais. Por este motivo, acho essencial propagar, difundir e até mesmo alardear as decisões pró-LGBT no judiciário, para aos poucos ir mudando uma certa cultura conservadora que todos nós sabemos que ainda existe nos tribunais", afirmou Berenice.

A doutora ainda sugeriu que fosse criado mais cursos de capacitação para advogados que tenham interesse na temática LGBT e informou que sugeriu, pessoalmente, ao presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Cezar Britto que fosse criada uma Comissão da Diversidade Sexual na OAB.

A campanha Não Homofobia é uma iniciativa do Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBT, em parceria com a ABGLT, Articulação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), Frente Parlamentar Pela Cidadania LGBT no Congresso Nacional, Grupos LGBT de todas as regiões do país; além dos portais Disponível.com; Acapa.com e Mixbrasil, entre outros.


Informações para a imprensa

Márcia Vilella | Diego Cotta
Target Assessoria de Comunicação
Tels: 21 8158 9692 | 8158 9715 | 2284 2475
target@target.inf.br
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segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Homens de vestido vão ao divã

Jornal Comunicação
Jornal laboratório do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Paraná

Ano XI | Curitiba, 24 de Novembro de 2008
Opinião | 18/11/08 - 20h39

A psicanalista Eliane Kogut fala sobre os crossdressers

Reportagem Juliana Vitulskis
Edição Flávia Silveira

Juliana Vituslkis
Segundo Eliane Kogut, não é uma decisão racional dos crossdressers se vestir ou não de mulher, mas uma necessidade muito grande.

Os crossdressers (CDs) sofrem uma compulsão: se vestir de mulher, embora a maioria deles seja heterossexual e preserve sua masculinidade. Vários deles foram pacientes de Eliane Kogut, psicanalista, doutora em psicologia clínica.


Durante seis anos, Eliane acompanhou os integrantes do Brazilian Crossdresser Club (BCC) e defendeu, em 2006, uma tese de doutorado na PUC de São Paulo sobre esse grupo social: Crossdressing masculino, uma visão psicanalítica da sexualidade crossdresser. Antes, sua tese de mestrado deu origem ao livro Perversão em Cena, sobre perversão sexual, psicanálise e cinema. Na tese, ela distingue erotismo de sexualidade, o que permite ampliar a pesquisa sobre o assunto, além de desvendar um universo tão ambíguo. Em entrevista ao Comunicação, ela fala sobre o assunto, ainda pouco conhecido.


Comunicação: Porque o interesse pelo assunto? É relevante estudar esse comportamento em que sentido?


Eliane Kogut: Não tinha nada ainda a esse respeito, nem a partir desse ponto de vista quando eu fiz a minha tese. Eu tinha feito a minha tese de mestrado em sexualidade humana, sobre perversão e cinema. E nesse período eu tive um paciente que tinha algumas características de crossdressing, que foi quando eu comecei a pesquisar o assunto. Enquanto eu estava pesquisando, também foi publicada uma matéria sobre isso na revista Marie Claire, em 2000. A partir daí eu fui pesquisando mais e mais, e achei que era um tema muito interessante, pouco conhecido. Achei necessário pesquisar o assunto também porque eles passam por muito sofrimento. Às vezes eu converso com colegas meus, psicólogos, e muitos deles ainda não conhecem o crossdressing. Realmente é uma coisa pouco divulgada e pouco conhecida. E isso gera preconceito, o que provoca mais sofrimento ainda.


A matéria da revista Marie Claire pode ser encontrada aqui

Comunicação: O crossdressing é considerado um distúrbio?


Kogut: É um distúrbio no sentido cultural. No DSM-IX e no CID-10, que são catálogos das doenças psiquiátricas, o travestismo está lá. Agora, se a gente pensar também que em 1974, a homossexualidade ainda estava nesses catálogos, imaginamos que no futuro pode ser que o travestismo saia também. Eu pessoalmente não acho que eles são doentes.Cheguei à conclusão é de que o crossdressing é mais ou menos como uma droga, porque existe uma espécie de fissura. Eles têm que se vestir, é uma necessidade, se não a angústia vai a níveis muito elevados. Não é algo que eles escolhem.Claro, depois que eles fazem parte desses grupos, como o Brazilian Crossdresser Club, aí eles não se vestem apenas quando vem essa angústia. Existe o que eles chamam de urge e purge. A urge é a urgência de se vestir. Aquilo vem com força e, se eles não se vestem, a angústia vai a mil. E a purge é a negação, a reação do tipo: “eu não posso mais ser isso, isso não é bom para mim”. Então eles desistem de tudo, geralmente dão tudo que eles têm – eu conheço pessoas que já deram dois guarda-roupas inteiros - mas aí tornam a fazer, porque isso volta depois com muita força. Não se trata de uma decisão racional, não é desejo - é uma necessidade muito grande de se vestir de mulher.


Comunicação: Existe uma idade, em média, para o surgimento do crossdressing? Pode se desenvolver ao longo da vida? E existem possíveis explicações para o surgimento desse comportamento?


Kogut: A maioria dos homens que eu conheci e pesquisei começou entre 4 e 6 anos de idade. Em termos genéticos, a gente não tem nenhuma comprovação de que exista algum fator dominante. Imagina-se que pode ser que existam o fator genético e o cultural, que são complementares - se houver uma predisposição genética e o meio cultural contribuir, pode resultar no crossdressing. Temos hipóteses, mas não existe nenhuma pesquisa que defina que isso é genético, ou só cultural.


Comunicação: E o que compõe essa influência cultural?


Kogut: Pode ser composta de uma mãe ‘meio apagada’, um pai mais agressivo (não no sentido de agressão física), ou mais afastado do filho, mais ausente, que seja alguém com quem o filho não se identifique muito. Mas, no final, ele tem as duas identificações: a identificação com o pai e a identificação com a mãe.


Comunicação: O crossdresser pode deixar de ter a necessidade de se vestir de mulher?


Kogut: Eu nunca vi um crossdresser que parou completamente de querer se vestir de mulher. No meu consultório, trabalho buscando o que eles querem. Se para a pessoa o crossdressing é um incômodo muito grande, vou desenvolver um trabalho voltado para ampliar mais a vida masculina dela. Mas, mesmo assim, a gente tem que elaborar esse lado feminino que existe, ele tem que ser integrado na personalidade. Se o indivíduo tem vontade de viver bem as duas coisas, e integrar mais esse lado feminino na vida dele, damos esse enfoque ao tratamento. Eu tive um paciente que a única coisa que ele gostava era de ter relações sexuais com a esposa vestido de mulher. Era só isso que ele precisava, não fazia questão de sair vestido de mulher. Alguns que só gostam de vestir roupa íntima feminina. Então existem várias as graduações do crossdressing. Têm aqueles que se vestem todo final de semana e freqüentam festas, e tem os que vão fazendo transformações no corpo, que podem até chegar a se tornar transexuais - que é fazer a cirurgia de redesignação sexual, para se tornar mulher mesmo.


Comunicação: O crossdressing pode então ser considerado um travestismo em menor grau?


Kogut: O crossdresser é um travesti, mas é diferente do travesti de rua. Eles têm a vida masculina deles, o travesti não. Muitos travestis vivem de prostituição, se envolvem com drogas. Isso porque eles têm muita dificuldade em serem aceitos na sociedade. Existe muito cabeleireiro, costureiro, maquiador que é homossexual. Mas você não vê travestis nessas funções, por exemplo. Eles são pouco aceitos, não têm lugar na sociedade. Agora, esse travesti sobre o qual estamos falando, o crossdresser, ele tem a vida normal, como homem, e quando quer, se veste de mulher. Eles também não têm nada de afeminados.


Comunicação: E quanto à sexualidade, o que diferencia o comportamento dos crossdressers?


Kogut: O que foi muito importante na minha tese foi que eu distingui comportamento de erotismo. Comportamento é aquilo que você faz. Erotismo é aquilo que provoca e mantém a excitação. Então, no comportamento, uma parte deles é bissexual (mantém relações sexuais com ambos os sexos) e outra parte é heterosexual (mantém relações com o sexo oposto). Eu não conheci nenhum crossdresser homossexual (relações com o mesmo sexo). E no erotismo eles não são nem hetero, nem homo, nem bissexuais, porque, apesar de eles terem relações com os dois gêneros, masculino e feminino, o erotismo deles não está voltado para a outra pessoa. Por exemplo, para o homossexual, o objeto de desejo é outro homem. Ou seja, um homem forte, musculoso, com barba cerrada. Se for uma mulher, é outra mulher e uma mulher também feminina, não tem essa coisa de ficar procurando só mulheres masculinizadas. Para o heterossexual, o objeto de desejo é o sexo oposto. Mas, para os CDs, o objeto de desejo é a própria figura feminina que eles constroem.


Comunicação: Essa figura feminina é uma personagem?


Kogut: Não é uma personagem, porque não é uma atuação. É um lado deles mesmos, que é assim feminino. Então, quando eles estão com uma mulher, não sempre, mas muitas vezes, o desejo é de ser aquela mulher. A fantasia e o erotismo para o CD é ele se imaginar sendo aquela mulher com quem ele está mantendo relação sexual. Quando ele está com um homem, aquele homem significa que ali existe uma mulher, o que corrobora com a figura feminina dele. É complicado, é ambíguo, não é fácil de compreender.


Comunicação: Eles se sentem como mulheres? De que forma essa presença feminina compõe a personalidade deles?


Kogut: Muitos deles se sentem homens com alma feminina. Muitos me falam assim: “As mulheres deveriam gostar muito de nós, porque somos capazes de compreendê-las muito melhor, nós conhecemos a alma feminina”. Mas o que eu percebi durante a minha tese também é que, embora eles tenham alguns componentes femininos na personalidade, o que eles chamam de alma feminina é uma impressão criada do ponto de vista masculino. É o que eles acham que a mulher é. As mulheres não sentem prazer em balançar os cabelos, com o ‘toc toc’ dos tamancos, ou em vestir uma meia. Mas, na visão deles, a mulher é isso, ela sente prazer em se vestir como mulher. Até porque o prazer deles é esse: vestir uma meia calça, salto alto e balançar os cabelos.


Comunicação: O crossdressing é um fetiche?


Kogut: Não é só fetiche, porque o fetiche é quando a pessoa só tem prazer sexual com uma parte da sexualidade: com a presença de um objeto, ou com uma parte do corpo. E, no caso dos crossdressers, a fixação é no corpo inteiro. O grande prazer é com a figura feminina que eles conseguem montar. Embora eles gostem muito de salto alto, não é só isso que gera prazer. O que traz a excitação é ele se sentir uma mulher, sobre o salto alto. Às vezes eles se vestem apenas com calça jeans e camiseta, mas o importante é eles sentirem que fizeram uma boa montagem de mulher. É diferente também da drag queen, que faz uma figura mais debochada, exagerada e é, normalmente, homossexual.


Comunicação: E como fica a questão dos limites entre o feminino e o masculino? De que forma isso é trabalhado na psicanálise?


Kogut: Trabalho com eles da mesma forma que com qualquer outro paciente. É uma questão existencial, o paciente escolhe até onde ele quer chegar, a gente tenta chegar até esse ponto. É preciso pensar nos custos que ele vai ter pela frente, e se está disposto a pagar o preço - é igual a qualquer outro paciente. Os primeiros que vieram para eu atender ficavam muito preocupados em me contar sobre o crossdressing deles. Eu sempre pedia que eles se colocassem como um todo, porque é assim que a pessoa deve se perceber.


Comunicação: E como é para eles manter a vida dupla, que ocorre na maioria dos casos?


Kogut: Algumas das esposas aceitam, alguns não contam para as mulheres, e geralmente, dos que contam para as mulheres, a família de origem não sabe. Muitos não podem abrir mais esse lado porque teriam que pagar um preço muito alto. Enfrentariam muitas críticas, muita pressão. O grande medo que eles têm é de perder muito com isso. E é aí que entra o trabalho desenvolvemos juntos: se ele quer viver essa vida, se isso é super importante e ele tem essa fissura, então é preciso fazer ele integrar isso da melhor maneira na personalidade, pagando só os preços que ele acha que pode pagar.


Comunicação: Existe um limite entre o crossdressing e o transexualismo?


Kogut: Não tem uma linha divisória. Muitos transexuais passam pela fase do travestismo até descobrirem que eles querem fazer a operação para mudar o sexo e que querem viver como mulher pra sempre. Outros fazem algumas modificações, mas param por aí. Tomam hormônio, mas precisam depois usar faixas para disfarçar os seios. Tomam sol de biquíni, e então não podem mais ir à praia ou piscina com amigos, ou têm de ficar de bermuda e camiseta diante deles. Alguns fazem depilação. Enfim, para quem mora na praia principalmente é um problema. São vários conflitos com relação a esse limite, que são realmente causadores de sofrimento.


Comunicação: Existe uma média de idade em que eles passam a se aceitar como crossdressers e a lidar melhor com todas essas questões?


Kogut: Principalmente os que não se reprimem e que tem convívio social, de alguma forma estão integrando isso na vida deles, seja com mais, ou menos sofrimento. Se a mulher sabe, fica um pouco mais fácil. Mas com a internet, eu acredito que as coisas mudaram um pouco. Quando eu comecei a fazer essa pesquisa, a internet não era tão acessível como é hoje e eles se achavam aberrações. Com a internet e a maior facilidade de achar e trocar informações, eles podem dividir isso com outras pessoas, o que é um alívio muito grande. Mas não existe uma idade certa, o que existe é um processo que depende de quando eles descobrem o que é e começam a se aceitar.


Comunicação: Qual é a importância de um clube como o BCC para os crossdressers?


Kogut: Eles poderem encontrar seus pares, ter seus iguais, não se sentirem tão sozinhos. O grupo dá mais força a eles. E esse grupo já fez mais de dez anos, mas só agora começou a aparecer na mídia. É um movimento muito lento, porque o medo da exposição era muito grande. Mas hoje alguns já se expõem um pouco mais.

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Programa do Jô - Psicóloga Eliane Kogut fala de crossdressing

Foi ao ar no último dia 07 de novembro, sexta-feira, no Programa do Jô, uma entrevista com a Drª. Eliane Kogut, psicóloga que defendeu a Tese de Doutorado chamada: "Crossdressing masculino: uma visão psicanalítica da sexualidade crossdresser".

http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=33343

A entrevista abordou diversos aspectos da personalidade das crossdressers, contou com a presença na platéia de Kelly da Silva Neta, Presidente do Brazilian Crossdresser Club - BCC (http://www.bccclub.com.br/) e com depoimento especial gravado com a crossdresser Solange Elizabeth, associada do BCC.


A matéria está disponível no site da Globo:



Agora também no YouTube, confiram:

Parte 1


Parte 2


Parte 3


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Cantora transexual de 16 anos faz sucesso entre internautas da Alemanha

G.Online

Por Redação

19.09.08

Divulgação

Uma cantora adolescente que faz tratamento para mudança de sexo desde os 12 anos de idade é a nova sensação dos internautas da Alemanha. Kim Petras, 16, é o nome da garota cujos hits estão entre os mais escutados pelos membros da comunidade alemã do MySpace.

"Minha música é o que há de mais importante para mim neste momento. É a maneira com que eu posso me expressar melhor", disse ela, de acordo com o site britânico PinkNews.com. "Sei também que, por causa do meu passado, as pessoas sempre falarão desse assunto, não há como eu escapar", acredita.

Há três anos, os médicos confirmaram que a alemã Kim é transexual. Ela pode mudar seu nome - que originalmente era Tim - e, desde então, se submete a um tratamento com injeções de hormônio feminino que a preparam para uma futura cirurgia de mudança de sexo.

Ainda em 2008, Kim deve assinar contrato com uma gravadora para lançar seu primeiro álbum. "Tenho esperança de que um dia serei mais conhecida pela minha música do que pelo meu passado", completa.

Menino inicia mudança de sexo aos 12 anos

O Globo

Enviado por Fernando Moreira -30/1/2007 - 9:40



Tim virou Kim. Simples assim. Aos 12 anos de idade ele se converteu na pessoa mais jovem do mundo a passar por uma cirurgia de mudança de sexo, de acordo com o jornal britânico "Sunday Telegraph".


Tim foi diagnosticado por uma junta médica como transexual há dois anos na Alemanha. Médicos e psiquiatras concluíram que ele estava em um "corpo errado". Assim, o processo para mudança de sexo foi iniciado, com terapia hormonal, a fim de interromper o desenvolvimento de traços masculinos da puberdade e fazer surgir marcas femininas, como seios. Depois disso, Kim foi submetida aos preparativos para a cirurgia genital, que vai completar a transformação.

Agora com 14 anos, Kim, que tem registro civil de sexo feminino, vive como todas as meninas de sua idade. Gosta de usar roupas da moda e faz de tudo para realçar o longo cabelo louro e os olhos azuis. O sonho dela é se mudar para Paris e se tornar estilista.


Os pais, que inicialmente pensavam que o problema era uma fase passageira, agora já se dizem acostumados em ter uma filha. Quando criança, Tim era visto na companhia de várias bonecas Barbie e gostava de usar vestidos.

"Nós víamos Kim como uma menina, não como um problema. Nossa vida era surpreendentemente normal", contou o pai, identificado como Lutz.


A identidade dos três não foi totalmente revelada.

"Kim é uma criança bem-desenvolvida mentalmente que parece feliz e equilibrada. Não há dúvida quanto aos seus desejos, que já eram detectados nos primeiros anos da infância. Teria sido errado deixar Kim crescer como um homem", escreveu em seu diagnóstico o médico Bern Meyenburg, da clínica para distúrbios de identidade de Frankfurt, que cuidou do caso.

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Monas - Documentário sobre travestis e transexuais

Confiram esse documentário, feito como trabalho de conclusão de curso em 2006, sobre as transformações que passam as travestis e transexuais.

Tem como tema a rejeição da própria família, hormônios, silicone e muitos outros aspectos, relatados em entrevistas com 4 travestis ou transexuais e um pesquisador.

Muito interessante, bastante realista. O vídeo está dividido em 3 partes:

Parte 1



Parte 2



Parte 3


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Por uma vida cor de rosa

Revista Época-SP

Fernanda nasceu com corpo de homem, mas ama, sente e pensa como mulher. Eleita em junho a Miss Brasil Transex, ela espera há oito anos para fazer uma cirurgia de troca de sexo no Hospital das Clínicas de São Paulo. Assim como ela, outras centenas de pessoas vivem essa mesma agonia

Camilo Vannuchi



André Sader
NA FILA: A cabeleireira Fernanda aguarda há anos a convocação do Hospital das Clínicas para realizar sua cirurgia de adequação genital


“Que mulherão!” Foi esse o comentário do motorista que nos levou à casa de Fernanda, a moça da foto ao lado, ao vê-la após a entrevista. Loira, alta, com um decote generoso e sandálias de salto fino, Fernanda está habituada a galanteios, embora não esconda o ar pueril de quem, aos 27 anos, divide a cama de solteiro com um ursinho de pelúcia. Fernanda mora com os pais no mesmo sobrado de classe média em que nasceu, na Zona Norte.

Quase tudo em seu quarto é cor-de-rosa: as paredes, a colcha, as almofadas. Até uma réplica da Pantera Cor-de-Rosa vive pendurada sobre a cabeceira da cama. Aliás, há muito da personagem em Fernanda, uma pantera ao mesmo tempo ingênua e ardilosa, acostumada a desviar dos vasos de flores que, como no desenho, despencam sobre sua cabeça – uma tigresa de unhas rosadas que driblou preconceitos e não poupou esforços até se tornar o que nosso motorista chama de mulherão. Em junho, os predicados de Fernanda renderam a ela o prêmio principal em um concurso de beleza com 13 anos de tradição: o Miss Brasil Transex 2008.




André Sader
CABEÇA FEITA: A Miss Transex 2008 tem um salão de beleza na Zona Norte. Em novembro, ela representa o Brasil na final, na Tailândia

Filha de um serralheiro e de uma cabeleireira, Fernanda é uma mulher transexual – uma pessoa que, segundo a literatura médica, age, pensa, sente e ama como mulher, embora tenha nascido em um corpo de homem. Incluído na décima versão da Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde, catálogo conhecido como CID-10, o transexualismo é um transtorno de identidade que, estima-se, acomete uma em cada 30 mil pessoas nascidas com genitais masculinos e uma em cada 100 mil nascidas com genitais femininos. “Enquanto o homossexual tem atração por pessoas do mesmo sexo e o travesti gosta de se vestir e de se portar como alguém do sexo oposto (o que pode ocorrer ocasionalmente e não implica necessariamente desejo físico), o transexual é irredutível diante da certeza de que a natureza cometeu um equívoco ao lhe dar um corpo estranho que, muitas vezes, lhe causa repulsa”, diz a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade da USP (ProSex). Nesses casos, o tratamento pode incluir a cirurgia de adequação genital, aquela que busca “adequar” o sexo fisiológico ao sexo psíquico (também conhecida como cirurgia de redesignação sexual ou de troca de sexo).

Em São Paulo, o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC) realiza gratuitamente a cirurgia desde 1998, um ano após o Conselho Federal de Medicina autorizar sua execução, em caráter experimental, em hospitais universitários. Passados dez anos, o Ministério da Saúde acaba de incluir a operação na lista de procedimentos custeados pelo Sistema Único de Saúde e credenciou quatro hospitais para realizá-lo – entre eles, o HC. “Trata-se de uma reivindicação antiga das mulheres transexuais e dos profissionais de psiquiatria”, justifica Alberto Beltrame, diretor de atenção especializada do ministério. “O foco não é a cirurgia apenas, mas todo o processo transexualizador, que necessariamente inclui apoio endocrinológico, atendimento psiquiátrico e acompanhamento psicoterapêutico por pelo menos dois anos, antes e depois da cirurgia.” No HC, um grupo interdisciplinar oferece esse suporte há mais de dez anos. O correto diagnóstico, dizem os especialistas, é a etapa mais delicada. “Trocar de sexo não é como ir à manicure. Se uma cor de esmalte não agrada, a gente escolhe outra. Mas não dá para devolver o pênis a quem se arrepender da cirurgia”, diz Carmita Abdo, do ProSex.

Fernanda espera há oito anos pelo mais importante telefonema da sua vida – do outro lado da linha, uma funcionária do HC dirá que sua cirurgia foi marcada. Quando isso acontecer, Fernanda chegará ao final de um processo que começou na infância, quando o pequeno Fábio Ferreira de Lima, seu nome de registro, brincava de boneca com a irmã caçula enquanto os dois irmãos homens, mais velhos, jogavam futebol. “Eu saía do banho com uma toalha enrolada no cabelo, colocava os vestidos da minha mãe e andava de tamancos pela casa”, diz. “Mamãe achava graça. Hoje, ela diz que nunca conseguiu ver um Fábio em mim.”



André Sader
SEM VAGAS: Cláudia tentou entrar no programa do HC parea a mudança de sexo, mas soube que os grupos estão lotados

Impaciente com a longa espera: Cláudia (nome fictício) vive uma fase de angústia. Há quatro anos, ela namora um rapaz que, em razão de seu envolvimento com uma transexual, tem sido ridicularizado por parentes e amigos. Ela se sente culpada pela segregação e não vê a hora de fazer a cirurgia. Quando acontecer, pretende apagar para sempre o passado – por isso a recusa em revelar o nome. Aos 36 anos, Cláudia toma hormônios desde os 29, quando deixou o emprego em uma empresa de marketing e resolveu assumir sua condição. Fez depilação a laser, exibe seios proporcionados por hormônios e, há três meses, raspou o pomo-de-adão em uma cirurgia. Cinco anos atrás, tentou se inscrever no programa do HC. “Prometeram me ligar assim que aparecesse uma vaga, mas nunca ligaram”, conta.

A história de Fernanda é parecida com a de muitas outras transexuais, tantas vezes representadas no cinema. Começou a tomar hormônios aos 13 anos, graças a uma amiga mais velha que, todo mês, buscava para ela duas cartelas de anticoncepcionais no posto de saúde. “Eu tomava 56 pílulas em 15 dias”, conta. Em razão da superdosagem de estrógeno, a voz de Fernanda não engrossou, os pêlos rarearam, o pomo-de-adão não se desenvolveu e as mamas cresceram. “Aos 15 anos, tive de comprar um sutiã”, afirma. Aos 16, Fernanda descobriu os hormônios injetáveis, assumiu a nova identidade e abandonou o curso de magistério. Da mãe cabeleireira, herdou a profissão. Aos 19, ficou sabendo que o HC realizava a cirurgia e inscreveu-se no programa. Colocou silicone nos seios, fez lipoaspiração, plástica no nariz e amargou uma espera de sete anos até ser convocada, em dezembro, para a avaliação final. Ao longo do primeiro semestre, Fernanda freqüentou sessões de psicoterapia e passou por uma série de testes exigidos para o diagnóstico. Cumprida a maratona, foi considerada apta para a cirurgia. Agora, só falta o telefonema. “Era para eu já ter sido chamada. Chegaram a agendar para 8 de agosto, mas acabaram adiando”, diz.


O ritmo de cirurgias no HC é lento. Desde 1997, apenas 25 transexuais masculinos concluíram o processo transexualizador e trocaram o pênis por uma “neovagina” (termo cunhado para designar o canal esculpido na região do períneo que permite à transexual ser penetrada). Na média, acontecem três cirurgias por ano. Hoje, há aproximadamente 60 pacientes em tratamento, dez na mesma situação de Fernanda e outras 200 inscritas para iniciar o processo. “Nem todas receberão a indicação da cirurgia”, diz o psiquiatra Alexandre Saadeh, responsável por diagnosticá-las. “Transexual masculino é o indivíduo que se sente mulher e faz tudo para se tornar uma. Não usa o pênis para nada e, muitas vezes, tem aversão a ele, chegando a se mutilar.”

Procedimento de alta complexidade, a cirurgia consiste em uma delicada manobra na qual a uretra é desviada, os testículos são retirados, o prepúcio se transforma na parede interna da neovagina e a pele da bolsa escrotal é usada na construção dos grandes lábios. “A sensibilidade é preservada, de modo que a transexual operada tem prazer na penetração”, afirma o urologista Frederico Queiroz, responsável pelas cirurgias no hospital. Até o ano passado, Queiroz era o único cirurgião do HC disposto a atender essa população. No início de 2007, no entanto, o médico completou 70 anos e foi obrigado a se aposentar em razão da idade. Desde então, um substituto tem sido procurado. O primeiro candidato a ser treinado pediu afastamento há alguns meses – o que contribuiu, junto com o incêndio que atingiu os ambulatórios em dezembro, para aumentar o tempo de espera. “Temos direito a usar uma única sala do centro cirúrgico durante um único dia por mês para realizar não apenas as novas cirurgias, mas também cirurgias de retorno”, diz Queiroz, referindo-se a eventuais retoques e reparos.

Os gargalos mencionados pelo urologista colocam em xeque a relevância da inclusão do processo transexualizador no âmbito do SUS. No HC, a novidade foi recebida com nervosismo. Existe, ali, a percepção de que a portaria do ministério não solucionará os demais problemas, como a falta de pessoal e o engarrafamento no centro cirúrgico. Berenice Mendonça, professora titular de endocrinologia e chefe do grupo interdisciplinar, negou-se por e-mail a dar entrevista. “Não temos competência para ampliar o número de atendimentos”, justificou. “Qualquer indicação na imprensa aumenta muito o número de pacientes autodenominados transexuais que procuram o hospital, o qual não tem condição de atendê-los. Isso cria uma falsa expectativa e gera insatisfação e desconforto nos pacientes.”

Para o movimento transexual organizado, a decisão do SUS é, acima de tudo, uma conquista histórica. Agora, seu foco de atuação será por uma normatização judicial da troca de nome (e de sexo) no registro civil, obstáculo que costuma complicar a vida das transexuais que buscam emprego formal e desejam se casar no papel com seus companheiros. “Tivemos uma audiência com o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, e ele nos prometeu que, a partir de agora, todas as ações ministeriais referentes às transexuais serão conduzidas na área técnica da saúde da mulher”, diz Carla Machado, do Coletivo Nacional de Transexuais, comemorando outra vitória. Para o Ministério da Saúde, o próximo desafio é habilitar novos centros. “Sabemos que existe uma grande demanda e queremos que o processo transexualizador deixe de ser experimental para se tornar um procedimento regular nos hospitais”, diz Alberto Beltrame, do ministério.

Fernanda, nossa Miss Brasil Transex, diz ter chegado ao limite da paciência. Depois de romper um namoro de três anos e desfazer um noivado, ela se sente angustiada com a impossibilidade de se casar e com a necessidade de apagar a luz e esconder o próprio corpo toda vez que vai para a cama. “Não quero ficar assim até os 30”, desespera-se. Com viagem marcada para a Tailândia, onde disputará a etapa mundial do concurso de beleza transexual em novembro, Fernanda faz as contas para ver se consegue voltar de lá operada. O país é referência nesse tipo de cirurgia e os 5 mil euros cobrados pelo procedimento cabem em seu orçamento. “Mas e se houver alguma complicação e eu tiver de ficar mais de um mês lá para me recuperar ou fazer outra cirurgia?”, indaga. Em Jundiaí, no interior do Estado, um famoso cirurgião especializado no procedimento se dispôs a operá-la por R$ 25 mil. Fernanda ainda prefere esperar pelo telefonema do Hospital das Clínicas. Mas não por muito tempo.


Mudança de sexo

Várias produções abordaram o drama dos transexuais no cinema. Conheça alguns “clássicos” sobre o tema:


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Jogo perigoso
(EUA, 1986) – História real do médico e jogador de tênis Richard Radley, interpretado por Vanessa Redgrave, que enfrenta o boicote da sociedade americana ao trocar de sexo. Após adotar o nome de Renee Richards, a transexual fez carreira no tênis feminino e chegou a ser técnica de Martina Navratilova.




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A Lei do Desejo
(Espanha, 1987) – Carmen Maura, uma das atrizes prediletas do cineasta espanhol Pedro Almodóvar, interpreta a irmã transexual de um diretor de cinema (pelo qual o personagem de Antonio Banderas é obcecado) que se vê envolvida em uma trama repleta de desencontros e confusões.




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Traídos pelo Desejo

(Inglaterra, 1992) – Ganhador do Oscar de roteiro original, este filme de Neil Jordan conta a história de um guerrilheiro do IRA (Stephen Rea) que procura a namorada de um soldado inglês preso e morto pela organização terrorista para falar sobre o ocorrido e acaba se apaixonando pela moça, que esconde um segredo.





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Minha Vida em Cor-de-Rosa
(Bélgica/FRANÇA/INGLATERRA, 1997) – Comovente história de um garoto de 6 anos (George du Fresne) que cresce com a certeza de que nasceu no corpo errado. Recriminado pelos pais e pelos vizinhos, ele se refugia em um universo róseo, com vestidos e bonecas. Primeiro longa do diretor belga Alain Berliner.




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Hedwig
(EUA, 2001) – Hedwig é uma cantora que nasce homem na Alemanha. Apaixonada por um recruta americano, se submete à cirurgia de troca de sexo para se casar com ele. Depois, já nos EUA, Hedwig é abandonada. A história da roqueira gerou filme e peça off-Broadway, ambos escritos e estrelados por John Cameron Mitchell.




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Transamérica
(EUA, 2005) – Felicity Huffman, do seriado Desperate Housewives, vive Bree, uma transexual que, às vésperas de receber o laudo favorável à cirurgia, descobre que tem um filho, fruto de um antigo relacionamento com uma amiga. Obrigada pela psiquiatra a visitá-lo, Brie inicia uma viagem atrás do rapaz.

Olhares de Cláudia Wonder

Livro de Claudia Wonder dá uma lição de civilidade ao tentar derrubar o preconceito contra as trans

Por Hélio Filho, para o Mix Brasil



O universo das transexuais está desnudado para quem quiser ver, e admirar, no livro “Olhares de Claudia Wonder” (Edições GLS), escrito por uma das trans mais famosas e respeitada do Brasil, Claudia Wonder, claro. Em 181 páginas que reúnem crônicas, entrevistas e relatos, miss Wonder abre as portas do universo transexual para mostrá-lo de modo verdadeiro, real, longe de estereótipos e totalmente livre de preconceitos. As trans estão nuas, no sentido figurado, abrindo suas vidas e contando seus medos, angústias e suas trajetórias de vida, que nem sempre são fáceis e rodeadas do glamour dos shows feitos por elas. Um tapa na cara de muitos homossexuais que se acham superiores a elas simplesmente por serem mais bem-sucedidos profissionalmente, mas mal sabem que estão abaixo por nem sempre serem tão felizes quanto.

É mais do que um livro, é um documento, um recorte social, um registro histórico desse movimento no País e suas reverberações fora dele com a presença de muitas delas em países como Itália, Alemanha e Suíça, onde a própria autora morou por anos. Na capa, Claudia aparece bela e serena mostrado sua cara, como quem quer dizer que não tem medo de preconceitos arcaicos e que está disposta a dar o outro lado da face a quem agredi-la. Coragem e força tiradas de anos de luta sincera por dignidade e visibilidade. Marcas registradas de quem conhece bem Wonder. Ela revida os ataques com estilo, classe, em forma de palavras doces que são um soco no estômago de preconceituosos. Linda, educada, inteligente, mas alerta e pronta para se defender, sempre com elegância.

Dividido nos temas “Trabalho e profissão”, “Entrevistas”, “Identidade de gênero”, “Outras histórias”, “Perfis”, “Preconceito” e “Religião”, o bem escrito e elaborado texto desse ícone trans é uma leitura essencial para quem ainda carrega em si o que a própria autora, por várias vezes na obra, chama de homofobia internalizada, ou seja, aquela que é a pior de todas: a que vem dos próprios homossexuais. Antes de criticar ou menosprezar uma trans, é altamente aconselhável que se leia “Olhares...”. Com o perdão do trocadilho, seu olhar pode mudar radicalmente e você corre o maravilhoso risco de saber que também faz parte desse universo, mesmo não sendo uma trans.

Afinal, estamos todos envolvidos na mesma luta, somos vítimas dos mesmos preconceitos e desejamos as mesmas coisas. O que Wonder chama de antropofagia das tribos dentro do universo LGBT pode ser exterminado se você tomar consciência que as trans não são apenas prostitutas, cabeleireiras ou artistas. Elas são também advogadas, professoras, esteticistas de renome e, acima de tudo, seres humanos que tiveram a coragem de se assumir como realmente são em nome da felicidade plena de estar bem consigo mesmas, mesmo que isso implique no afastamento dos mais preconceituosos. Pior para eles.

Em seus textos, ela relembra um pouco de sua trajetória, destaca personagens antológicos que fizeram história no Brasil, percorre um pouco da história trans na Humanidade (revelando que isso existe desde a época das cavernas), mostra conhecimento de causa e cita com propriedade pensadores como o filósofo alemão Friedrich Nietzsche e o psicólogo suíço Carl Gustav Jung para dizer: somos gente, merecemos respeito e devemos ser admiradas porque temos coragem o bastante para sermos felizes do jeito que queremos, e não como dizem que é certo. Dê-se a oportunidade de ser guiado pelos olhares de Claudia Wonder e conheça mais sobre um mundo que também é seu. Olhe, admire, e aprenda. Até porque, críticas maldosas você pode deixar para a esmagadora maioria da sociedade, ok?

A obra será (foi) lançada no dia 10 de setembro, a partir das 19 horas, na Livraria Cultura - Loja de Artes do Conjunto Nacional, que fica na Avenida Paulista, 2073, em São Paulo.

Sexualidade: Você já ouviu falar em 'crossdresser'

Folha da Região, de Araçatuba-SP

Márcia Atik
Quinta-feira - 02/10/2008 - 03h01

Márcia Atik é psicóloga e terapeuta sexual; escreve quinzenalmente, às quintas-feiras, neste espaço, como colaboradora da Folha da Região.

Recentemente, li algumas reportagens a respeito do tema "crossdresser" e fiquei instigada a comentar o assunto. A diversidade sexual e o desejo, em tempos do politicamente correto, fez com que alguns assuntos fossem colocados na prateleira dos proibidos, recheados de preconceito e tabus.

Vale a pena começar a nossa conversa conceituando "crossdresser", isto é, pessoa que veste roupas usualmente próprias do sexo oposto, sem que essa prática interfira necessariamente na sua orientação sexual.

Ela pode ser heterossexual, bissexual ou homossexual. Normalmente, não utilizam hormônios nem cirurgias plásticas para se assemelharem ao sexo oposto, o que os distingue dos travestis e dos transgêneros, pois no cotidiano portam-se segundo seu sexo biológico.

Mas como não há mentira que dure para sempre, principalmente quando mentimos para nós mesmos, e só prestarmos atenção quando temos coragem de nos ver lá no escurinho da alma e perceber que nas entrelinhas surgem sensações de espanto e desconforto quando nos deparamos desejando coisas e pessoas que se encontram fora do "script".

Essa é sempre a primeira reação de quem é "crossdresser", e isso ficou muito claro nos bate papos que tive a chance de ter com esse público.

Não raro, ocorre uma tentativa de abortar sentimentos e desejos surpreendentes, assim como todos nós, que desqualificamos abandonarmos ou agredirmos verbal ou fisicamente aquilo que meramente não compreendemos na medida em que somos fruto do meio, e o meio - por mais que lutemos - tem uma força enorme nas nossas vidas.

A convivência no espaço cibernético é a grande porta aberta para que essa experiência seja dividida, ampliada e, até certo ponto, acolhe esse desejo em muitos casos ainda não compreendidos.

Estudos apontam que mais de 90% dos casos de "crossdressers" são de homens heterossexuais.

Em todas as histórias confidenciadas, a diversidade, os aspectos pessoais, individuais estão presentes, sendo o ponto em comum as calcinhas de irmãs ou mães esquecidas no banheiro, é daí que parte a primeira experiência em usar as roupas femininas e perceber o prazer que isso dá.

Essas práticas sexuais com escolha de objetos sexuais não tão comuns para estimular o desejo é uma forma de expressão da sexualidade, calcada em repressões infantis, que persistem na vida adulta.

A prevalência desses transtornos tem poucos dados e nem é estatisticamente computada, pois geram uma grande angústia pessoal.

Além disso, as pessoas escondem ou apenas procuram ajuda pressionadas pela família.

Há estudos que colocam qualquer transtorno de preferência sexual no grupo de transtornos obsessivos compulsivos, uma vez que vivenciada a situação e realizada a fantasia, obtém o alívio da ansiedade.

Vale uma reflexão sobre o papel das roupas na nossa psique, pois as roupas ocupam uma posição fronteiriça, tanto protege o espaço íntimo como nos revela e abre para o espaço relacional.

As roupas são uma tela na qual dia após dia inscrevem-se nossos estados de espírito, sonhos, dores, alegrias e sofrimentos.

Não tenho dúvida em afirmar que as histórias ligadas à infância ilustram alguns elementos em jogo quando os pais escolhem a roupa dos filhos. A criança é vestida pela mãe.

Por meio da roupa, os pais imprimem sua marca no corpo do filho, modelando-o inconscientemente segundo seu desejo. Para Freud, saber algo sobre o adulto atual deveria ser buscado na criança que o habita, já que esta o constitui.

O fato é que a intolerância com que o mundo lida com as diversidades sexuais é proporcional à intolerância que reservamos aos nossos desejos quando esses não correspondem à imagem que fazemos da nossa vida.

Na teoria, a liberdade é um sentimento que todos nós perseguimos, mas na prática só conseguimos quando temos coragem de viver em harmonia com o que sentimos, pois quando foge do padrão somos invadidos por um vendaval de culpas, sentindo-nos imorais ou doentes.

Imoral é a sociedade que não valoriza o afeto e o desejo na construção de uma relação afetiva.

Compreender essa diversidade significa exercer a sexualidade com respeito pela própria natureza e pela dos outros.

(O conteúdo do site da Folha da Região é somente para assinantes do jornal, mas quem tiver interesse em ler o original, pode se cadastrar para um período de acesso gratuito de 15 dias.)

Crossdressers: homens de batom

Diário do Grande ABC
quarta-feira, 8 de outubro de 2008, 09:37

Fernanda Borges
Do Diário OnLine


Diário OnLineFicou no passado o tempo em que vestido, salto alto e maquiagem eram acessórios exclusivos do público feminino. Os crossdressers, homens que vestem roupas do sexo oposto por satisfação pessoal, também não abrem mão das bijuterias e das longas perucas. Os CDs, como os adeptos do 'hobby' são conhecidos, são heterossexuais que possuem o fetiche de se transformar em mulher.


O termo crossdresser (vestir-se ao contrário, na tradução literal) foi importado para o Brasil em 1997, mesmo ano de criação do BCC (Brasilian Crossdresser Club), grupo cujo objetivo é reunir e dar suporte — principalmente psicológico — aos praticantes. De acordo com a presidente Kelly Neta (pseudônimo, foto), 51 anos, os CDs são homens que desejam uma identidade feminina, não significando que haja atração por pessoas do mesmo sexo. "Fazemos isso por puro fetiche, não é nada relacionado à opção sexual. No meu caso, sou hétero e muito bem casado. Porém, podem existir CDs que são homossexuais, mas isso não é regra", afirma.


O BCC possui atualmente 400 filiados, espalhados por 19 Estados brasileiros. Segundo Kelly Neta, o crossdressing é muito mais praticado do que se imagina, mas a maioria esconde o 'hobby' por conta do preconceito. "Muitos confundem a prática do crossdressing com os travestis. O que nos difere é a questão da comercialização do sexo e as alterações no corpo. Os CDs não têm nenhuma conotação sexual e não fazem modificações físicas permanentes, como silicones, uma vez que mantemos a identidade masculina", explica.


Apesar do cuidado que muitos CDs têm em preservar a identidade, alguns se produzem com peças do guarda-roupa feminino e saem às ruas sem intimidação. "Vamos a bares, restaurantes, shoppings e à praia, de biquíni e tudo mais, sempre sem invadir o espaço dos outros", explica Kelly. Para ela, mesmo com a caracterização feminina, o intuito não é se passar por mulher. "Nós temos a consciência de que não somos damas. Por isso nos vestimos apenas por entretenimento".


Os filiados ao BCC têm média de idade entre 45 e 50 anos e pertencem a diversas camadas sociais. "Têm até muita gente importante que não pode revelar a identidade por medo do preconceito e das conseqüências no meio em que vive", diz Kelly. É o caso do CD Nádia (pseudômino), 25 anos, morador de Mauá. "Todos acham que um homem que gosta de usar roupas femininas é homossexual. Esse é o meu maior medo, pois as pessoas não aceitam e confundem o fetiche com a opção sexual simplesmente por não conhecer o assunto", afirma.


No caso de Nádia, o interesse por saias e maquiagens surgiu na infância. "Eu vestia roupas da minha mãe e da minha irmã. Fazia tudo escondido. Cresci achando que era um bicho estranho, por isso tinha medo de contar para alguém".


De acordo com o BCC, Nádia é considerada um crossdresser de armário, pois não tem coragem de sair em público como mulher. Outra dificuldade para ela é assumir a opção para a namorada. "Hoje tenho um relacionamento com uma garota há quatro meses. Ela ainda não sabe, pois não sei se aceitaria. Vou conhecê-la bem primeiro, depois decido se conto", diz.


Louise (pseudônimo, foto à direita), 42 anos, de Porto Alegre (RS), também compartilha a opinião de que a Arquivo pessoal aceitação por parte do parceiro é um dos principais desafios de um crossdresser. "No momento estou solteira. Só pretendo iniciar um novo relacionamento com alguém que saiba e goste de mim como CD", afirma.


Louise também tem receio de ser reconhecida como CD, mas arrisca algumas saídas. "Aqui em Porto Alegre, mesmo nos locais GLBT (gays, lésbicas, bissexuais, travestis), existem poucas crossdressers e o pessoal ainda estranha nossa presença. Eu saio mais quando viajo para cidades maiores, como São Paulo e Rio de Janeiro, pois lá existe uma diversidade maior de opções e não tenho receio de encontrar algum conhecido", explica.


Suporte emocional - De acordo com a relações públicas do BCC, Patrícia Din (pseudônimo), 53 anos, o preconceito é a barreira que impede que os CDs assumam a posição perante a sociedade. Isso gera um conflito emocional e muitas vezes o praticante precisa de ajuda. "No clube, temos uma equipe de profissionais, inclusive no ramo psicológico, que vai ajudar o CD a se aceitar e a encarar a opção com naturalidade", explica. Segundo Patrícia, o apoio da família também é fundamental. "A minha mãe sabe que sou crossdresser e aceita numa boa. Ela até já fez um vestido para mim (risos)", revela.


Mas a maioria dos CDs vive uma realidade bem diferente de Patrícia, já que nem todas as famílias conseguem aceitar o fetiche como um 'hobby' comum. Porém, existem mulheres que aprendem a lidar com a opção do parceiro. Elas são as chamadas S/Os (Supportive Opposite) — pessoas do sexo oposto que apóiam e dão suporte emocional ao CD. Nesse sentido, Kelly Neta é uma privilegiada. Sua esposa, Maria Luiza, 43 anos, acompanha o marido em todos os momentos. "Ajudo a Kelly a comprar roupas, maquiagens e tudo mais o que precisar. Encaro tudo numa boa, já que o fetiche é bacana", revela.


Apesar do clima descontraído de Maria Luiza, ela revela que no início a aceitação não foi tão fácil assim. "Tudo começou como uma palhaçada, até que chegou o momento em que ele falou sério comigo e explicou que era um desejo incontrolável. Eu não sabia o que pensar e demorou um tempo até eu digerir a idéia de que meu marido gostava de se vestir de mulher", conta.

Veja também a entrevista que Kelly Neta e Patrícia Din concederam ao Diário OnLine:

Entrevista com Maitê Schneider no programa Caxola

Seguem os links para uma série de vídeos com a transexual Maitê Schneider, em entrevista ao programa Caxola.


Bloco 1



Bloco 2



Bloco 3



Bloco 4


São cerca de 40 minutos de entrevista em que ela passa quase toda a vida a limpo, contando detalhes do seu processo transexualizador, suas angústias, conquistas, cirurgias mal feitas, até chegar na mais recente, que pretende ser a definitiva.
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BCC no programa Bom Dia Mulher de Olga Bongiovani

Entrevista que foi ao ar no Programa Bom Dia Mulher, de Olga Bongiovanni, com a Presidente e a Diretora de Relações Públicas do BCC, Kelly da Silva Neta e Patricia Din, abordando a temática crossdresser.

Parte 1


Parte 2


Parte 3

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SP tem salão para crossdressers

"Montação" ocorre em absoluto sigilo

Por Bruna Angrisani
Publicado em 20/2/2008 às 00:59

Fotos




Crédito: Divulgação
A esteticista Dudda e uma de suas clientes secretas




Freqüentemente confundidas com travestis e drag queens, as crossdressers (pessoas que vestem roupas normalmente utilizadas pelo sexo oposto) agora já podem comemorar. A esteticista Dudda Nandez criou recentemente o primeiro salão exclusivo do país para quem quiser se montar e garante que tudo é feito no mais absoluto sigilo.


Para quem não sabe, não é necessário ser homo, bi, trans ou performer de shows para ser um CD (abreviação de crossdresser), basta apenas a vontade de transitar entre o universo masculino e feminino através do figurino para quaisquer fins. Se interessou? Então confira abaixo a entrevista exclusiva com a dona do salão e saiba detalhes a respeito do serviço que o Ateliê Dudda Nandez Beauty oferece.




Dykerama - Você é uma crossdresser?
Dudda - Não. Sou mulher, bissexual e procuro oferecer um espaço no qual possa oferecer todos os serviços que as pessoas necessitam sem a necessidade de se locomover a um salão comum evitando o risco de se sentirem constrangidas e inseguras e garantindo assim o sigilo de quem precisa.



Dykerama - Desde quando existe o salão?
Dudda - O Ateliê Dudda Nandez existe desde 2007. Iniciou suas atividades no final de março.



Dykerama - O seu salão sempre atendeu ao público crossdresser? Como surgiu esta iniciativa?
Dudda - Logo quando terminei meus cursos na área de beleza trabalhei um mês em um salão feminino e que também atendia o público masculino. Mas no fundo não estava contente e me sentindo insatisfeita saí. Pensei em algo que poderia fazer a diferença e ao mesmo tempo agregar algo na vida das pessoas. Como freqüento boates e lugares GLS desde meus 17 anos, percebi que as crossdressers e afins não tinham um espaço destinado a elas, então, resolvi criar a idéia e me dedicar a isso.



Tinha um amigo que se montava e tinha dificuldade de fazer isso em casa e adquirir acessórios, roupas, perucas e sapatos nas quais o transformaria numa mulher, priorizando o fato de não deixar rastros para outros descobrirem. Pensando nisso tudo decidi criar o Ateliê e com muito amor dedicar meu tempo e minha vida a isso.



Dykerama - Onde é o Ateliê e qual o horário de funcionamento?
Dudda - O Ateliê está situado no centro de São Paulo e atendo somente com hora marcada porque são serviços que necessitam de um tempo maior. Quanto ao horário funciona das 9h30 às 17h30. Futuramente pretendo ampliar o horário de atendimento. Mas visando sempre atendimento somente com hora marcada, pois o espaço é reservado e não fica aberto para exposição. Preservo um atendimento reservado, discreto e tranqüilo.



Dykerama - Quem faz parte da equipe? Quantas pessoas?
Dudda - A equipe tem 3 pessoas. Uma depiladora, uma pessoa exclusiva para fazer a tranformação e eu para acompanhar e conduzir o atendimento. Também faço a parte de conversar com as pessoas, ajudar a se descobrirem, ajudar a praticar o crossdressing e várias outras situações.


Dykerama - Qual o público-alvo? É exclusivo para crossdressers?
Dudda - Meu público-alvo é o público GLS em geral que necessita destes tipos de serviço e queiram um atendimento da forma como trabalhamos. Para as crossdressers privilegio algo mais privado, reservado, pois elas necessitam disso para não se exporem e para garantir que se sintam seguras e confiantes. Mas também há as crossdressers que são mais seguras quanto a visitar e freqüentar o espaço.



Dykerama - Você sabe para onde vai a maioria dos seus clientes depois que saem do seu salão?
Dudda - Procuram o Ateliê as crossdressers que querem sair montadas ou querem alguém para acompanhar para se sentir mais segura. As pessoas que freqüentam, geralmente, saem em turmas em baladas, barzinhos e outros locais do segmento GLS.


Dykerama - Quais são os serviços que o salão oferece?
Dudda - Transformação, montagem (roupas, sapatos, perucas e sessão de fotos), depilação, depilação artística, manicure, pedicure, estética facial, banho de lua, esfoliação corporal entre outros.



Dykerama - Quais os planos para o futuro do salão?
Dudda - Os planos para o futuro são muitos e, se Deus quiser, realizarei todos. Pretendo ampliar o espaço oferecendo muito mais serviços, ter profissionais tais como psicólogos e endocrinologistas, ter diversas linhas de roupas e tudo diversificado para cada tipo de fantasia e modelo. Gostaria muito de ter uma unidade fora de São Paulo, mas para isso preciso estruturar melhor e expandir aqui em São Paulo para depois pensar na próxima unidade. Preciso ver a aceitação e procura aqui na cidade e luto para que isso cresça cada vez mais. Como dizem, “com amor tudo flui”. Penso nisso sempre!



Dykerama - Há alguém famoso que freqüenta o seu salão?
Dudda - Há sim, mas é sigilo.



Dykerama - Quer acrescentar mais alguma informação?
Dudda - Quero agradecer à Bruna, à equipe do site Dykerama pelo suporte que dão ao meio GLS. Espero que apareçam cada vez mais pessoas como vocês para acrescentar no dia-a-dia das pessoas alegria, informação, bom conteúdo, amizade e dedicação. E peço que vocês leitores e as pessoas que acompanham o site, visitem também meu blog e disfrutem de toda a informação que for passada. Peço que necessitando de alguma informação, de uma conversa saudável ou qualquer outra coisa, entrem em contato. Espero também estar acrescentando algo na vida de vocês. É de grande valia para mim e para o mundo!


Para entrar em contato com a Dudda e agendar uma sessão você deve ligar para (11) 8742.7433 ou mandar e-mail para systasp@hotmail.com. Lembre-se que o serviço é realizado secretamente.


Transexuais e Mercado de Trabalho

Revista Época

17/10/2008 - 22:55 - Atualizado em 18/10/2008 - 11:25

Pesquisa com transexuais mostra preconceito contra mulheres no trabalho

A socióloga americana Kristen Schilt concluiu que homens que se submetem à cirurgia de mudança de sexo perdem salário e poder na carreira. Já as mulheres que assumem sua identidade masculina experimentam uma ascensão profissional

Thiago Cid
 Reprodução

Cansada de tentar detectar o preconceito de gênero no ambiente de trabalho, a socióloga Kristen Schilt, da Universidade de Chicago, teve uma idéia para demonstrar como o sexo influencia a evolução da carreira e a folha de pagamento dos funcionários. Em parceria com o economista Matthew Wiswall, da Universidade de Nova York, ela usou as experiências de transexuais em seus ambientes de trabalho antes e depois da mudança de sexo. Com esse método ousado, ela tentou diminuir um dos principais problemas para estudar as discriminações relacionadas ao sexo: o fato de que elas, geralmente, são encobertas por outras justificativas, como formação ou critérios de desempenho e comprometimento. Segundo a pesquisadora, seu estudo permitiu comparar a situação de pessoas com exatamente o mesmo capital humano, porém de sexos diferentes.


Dentro de sua pesquisa, Kristen esbarrou em outro assunto mais polêmico e desconhecido do que a discriminação em relação às mulheres e que passou a ser seu foco principal: como é o ambiente de trabalho para os transexuais? Segundo a Organização Mundial de Saúde, a transexualidade um transtorno de identidade e se manifesta pelo desejo de viver e ser aceito como uma pessoa do sexo oposto àquele do nascimento. As pessoas transexuais, no entanto, acham ofensiva essa designação e contestam o uso do termo transtorno. Esse conflito entre o cérebro e o corpo tem início na gestação, quando a programação sexual do cérebro - que ocorre antes da formação dos órgãos sexuais - não corresponde ao sexo biológico. As estimativas são que um em cada 30 mil homens e uma em cada 100 mil mulheres têm esse conflito de identidade.


As conclusões da pesquisa de Kristen Schilt evidenciam, em parte, o óbvio. Segundo seu estudo, o ambiente de trabalho, assim como qualquer outro meio social, é um ambiente hostil. Mas outras percepções desafiam o senso comum e mostram o privilégio que o gênero masculino pode ter no mercado de trabalho.


Com base no relato de mulheres transexuais - que nasceram com o sexo biológico masculino, mas têm identidade feminina - e dos homens transexuais - que nasceram com o sexo feminino, mas têm identidade masculina -, a socióloga americana descobriu que, em média, as "novas" mulheres, homens que submeteram a uma cirurgia de troca de sexo, tiveram perdas de salário e de autoridade. Já os "novos" homens relataram um pequeno acréscimo nos rendimentos e mais autoridade entre os colegas.


Kristen exemplifica a situação com o caso do neurobiologista Ben Barres, da Universidade de Stanford. Ben nasceu Barbara e já tinha uma carreira acadêmica de sucesso quando decidiu fazer a transição de gênero. Ele relatou que certas pessoas que não souberam de sua mudança afirmaram que ele era muito melhor que sua irmã, Barbara. Para Kristen, o depoimento do neurobiologista é sintomático da visão machista no mercado de trabalho e ilustra os benefícios que os homens transexuais eventualmente podem ter.


A conclusão vai ao encontro da percepção da socióloga Berenice Bento, da UnB, autora dos livros A (re)invenção do corpo: sexualidade e gênero na experiência transexual e O que é transexualidade. Berenice afirma que, baseada nas pesquisas brasileiras, não é possível constatar os ganhos materiais dos homens transexuais, mas quase todos relatam um ganho subjetivo: liberdade. Segundo a socióloga brasileira, essa liberdade seria traduzida em aspectos do comportamento masculino. “É uma obrigação menor com a aparência, poder ter um certo desleixo para se vestir, poder andar sozinho à noite”, diz.


Thiago Cid
 Reprodução

Por outro lado, as mulheres transexuais freqüentemente não agüentam o preconceito e as agressões que sofrem durante o processo de transição de sexo. É o caso da militante transexual Carla Machado. Formada pela USP e com MBA em marketing, Carla largou o emprego de nove anos em uma multinacional por não agüentar a hostilidade no trabalho. Ela conta que, desde criança, sentia-se uma mulher e só se deu conta de que era um menino ao chegar à puberdade. Daí viveu um período que chamou de fase andrógina. Ela se vestia com roupas neutras e escondia a identidade feminina para conseguir terminar a faculdade e encontrar um emprego. Aos poucos, foi sentindo a necessidade de se libertar e começou a tomar hormônios. As mudanças, porém, não passaram despercebidas na empresa.


“Primeiro deixaram de me chamar para as reuniões semanais com a diretoria. Depois algumas colegas para quem eu contei minha situação espalharam a notícia. Eu sabia que o diretor de recursos humanos não queria que eu permanecesse na empresa. Fiz um acordo que me deu vantagens e fui embora. Eu não podia ficar lá”, afirma.


A hora de mudar de sexo


Um outro ponto detectado pelo estudo de Kristen Schilt foi que os homens transexuais fazem a transição de gênero em média 10 anos antes de as mulheres transexuais. As meninas geralmente vislumbram os privilégios de pertencer ao sexo masculino e mudam a aparência física ainda no final da adolescência ou durante a faixa dos vinte anos. Já os homens receiam perder o emprego, a independência financeira ou até mesmo magoar a família se assumirem sua identidade feminina. Muitos, por imposição da sociedade, chegam a se casar e ter filhos.


Helena, uma transexual que não prefere não revelar sua identidade, relatou que a decisão de assumir a transexualidade só veio aos 43 anos. Ela teve uma breve carreira militar, era casada e tem uma filha. A auto-repressão quase a enlouqueceu. Helena tinha medo de perder o emprego de artista plástica em uma grande produtora cultural. “Mas chegou um momento em que eu não pude mais agüentar. Ao mesmo tempo que ainda tenho um pouco de dificuldade em me aceitar, era uma violência comigo mesma negar que eu era uma mulher. As pessoas tomam um choque, mas tive a felicidade de minha família entender e de os colegas de trabalho aceitar”.


O desfecho de aceitação da história de Helena, no entanto, não reflete a maioria dos casos, apesar de não ser possível determinar o que é maioria, já que não há estatísticas sobre a população transexual. Nem estimativas. De acordo com a professora Berenice Bento, não há políticas públicas de proteção e inserção dos transexuais na sociedade. No site do Ministério do Trabalho há um programa chamado Brasil Raça e Gênero que afirma, em termos vagos, possuir ações para a inclusão dos transexuais no mercado de trabalho. Ao ser solicitada, a assessoria do Ministério informou que, apesar de tais medidas constarem no programa, nenhuma ação ou política foi estabelecida. A Secretaria Especial de Direitos Humanos também não tem programas específicos para transexuais. O Ministério Público do Trabalho não tem números sobre os processos por preconceitos contra transexuais no mercado de trabalho.


O preconceito contra transexuais


A escassez de dados ajuda a deixar ainda mais distante das vistas da sociedade a situação dos transexuais, que, segundo Berenice, é “absolutamente trágica”. A inserção no mercado formal é baixíssima. Em sua tese de doutorado, a professora analisou um grupo de 20 transexuais de diferentes classes sociais escolhidas aleatoriamente. Das 20, apenas uma havia entrado na faculdade e, mesmo assim, não tinha conseguido concluir os estudos por conta do preconceito.


O cenário para as transexuais, no entanto, é de ligeira melhora, afirma a militante Carla. A principal razão é a recente decisão do Ministério da Saúde de incluir a cirurgia de mudança de sexo na lista de procedimentos pagos pelo SUS. A transferência das ações do Ministério para a área da saúde da mulher agradou as transexuais, que querem ter o reconhecimento de que não são homens que se vestem de mulher, mas mulheres de fato. Mas a evolução ainda é insuficiente na opinião da socióloga Berenice Bento, que vê no Estado o principal agressor das transexuais por causa da ausência de políticas públicas e da ação violenta da polícia. “Se faltam diretrizes básicas para a proteção física das transexuais, pensar em inserção no mercado de trabalho é algo muito distante”, diz.